Aesthetic x Aura: Um Convite Filosófico da Contemporaneidade

Neste mundo cada vez mais polarizado, faço um convite a uma pausa nos conflitos geracionais, a fim de conduzir nossas mentes a um fio de pensamento crítico que pode ser capaz de despertar consciências ou encher os corações com aquilo que realmente deveria ser o sentido das nossas existências.

Para quem não está familiarizado com os termos, “aesthetic” é algo que tem uma estética bem definida, capaz de traduzir visualmente as sensações e emoções que se quer representar. É uma expressão muito utilizada pela Geração Z – aqueles nascidos entre 1997 e 2012, que utilizam o Instagram como ferramenta de busca, muitas vezes em substituição ao Google.

Destaquei esse comportamento em específico para nos ajudar a compreender melhor os nossos pontos. O comportamento das gerações é moldado por diversos fatores que incluem a tecnologia disponível durante o período de formação dos indivíduos.

Em um cenário mundialmente saturado por informação, a Geração Z, a primeira nativa digital, compreendeu a psicologia por trás dos algoritmos que fazem com que o “belo” e o “esteticamente bonito” chamem mais a atenção por serem mais facilmente processados por nossos cérebros. Os algoritmos das plataformas de vídeos curtos recompensam a coesão visual e os “Gen Z” nasceram nesse contexto.

A sensação causada por um ambiente ou um visual esteticamente coeso é de “ordem” e “controle”, o que pode sugerir uma fuga da realidade de incertezas, com crises econômicas e climáticas. De certo modo, o “aesthetic” se torna uma romantização da vida cotidiana. Não criticamos isso, pois essa “fuga” é uma das ferramentas “Z” que os ajuda a valorizar a saúde mental.

Para eles, o “aesthetic” é algo que representa autenticidade, ou seja, uma representação de uma verdade interna. O visual transmite instantaneamente os valores da pessoa mesmo que ela não diga uma palavra.

Agora, precisamos inserir na nossa reflexão, de forma acolhedora, com a mente aberta ao aprendizado e atentos ao recém-ativo ECA Digital, a turma que nasceu de 2012 em diante: os “Alpha”.

Os mais velhos deles estão com 14 anos. Absorveram de tal forma o conteúdo de streamers que, para falarem com um grupo de amigos, de forma coletiva, usam o termo “chat”, da mesma forma que os influenciadores conversam com seus espectadores:

“E aí, chat… vocês viram o ECA Digital?”

A geração Alpha ainda está em formação, mas eles já demonstram valorizar a criatividade, a conectividade total e a personalização. No contexto do nosso fio de pensamento, eles nos oferecem um “upgrade” fundamental à ideia do “aesthetic”: a “aura”.

Se havia a necessidade de uma coesão visual, de certa forma “estática”, agora a busca é por um dinamismo de energia e comportamento. O “aesthetic” é algo montado com filtros, looks, etc. A “aura” é o que você emana através das suas atitudes.

Uma analogia simples ajuda a compreender: nos games, o personagem pode ser visualmente personalizado — aparência, estilo, acessórios — isso é o aesthetic. Mas, ao longo do jogo, suas ações, conquistas e escolhas constroem algo maior: sua reputação, sua força, seu reconhecimento. Isso é aura.

Seguindo o fio de pensamento, na nossa reflexão, saímos da valorização do visual para recompensar a atitude. Mas observem que nosso objetivo não é anular um para enaltecer o outro pois, como disse, nosso cérebro humano processa com mais facilidade aquilo que é visualmente coeso, fazendo com que as plataformas digitais premiem o “esteticamente condizente” com a intenção.

E neste momento começamos a transicionar o nosso fio de pensamento para a reflexão necessária. Os algoritmos das redes sociais são projetados com estratégias psicológicas de estímulos constantes, recompensa rápida e repetição automática, com rolagem infinita, vídeos curtos em sequência e notificações estratégicas. Tudo para roubar do ser humano algo fundamental: a atenção… e o tempo de vida.

Ainda conseguimos parar para medir o peso da troca que estamos fazendo?

Estamos deixando de conviver com nossos pais, nossos avós, nossos filhos, netos, amigos, para acompanhar fofoca da vida de pessoas que nem sabem que a gente existe.

E se a gente mudar de balança?

O tempo que gastamos consumindo conteúdos superficiais nos impede de aprender coisas novas, de crescer, de aprofundar. Não se trata de condenar o entretenimento, mas de questionar o excesso e a falta de consciência.

Este artigo foi escrito para alertar dos perigos que a humanidade corre ao se deixar escravizar pelos algoritmos. Quer mais um exemplo? A Niantic, Inc., famosa pela criação e desenvolvimento do jogo Pokémon Go, utilizou os dados coletados pelas câmeras dos usuários, no modo de realidade aumentada, para alimentar sistemas de IA usados para a navegação de robôs autônomos.

Em outras palavras, a Niantic colocou cerca de 67 milhões de jogadores ativos mensalmente para trabalharem para ela, em troca de um Pikachu… ou um Charmander virtual.

Mas o grande ponto até onde o fio de pensamento deve nos conduzir é:

Quanto Pastoral da Comunicação, a “aesthetic” dos perfis das nossas paróquias, ou a “aura” emanada por nossas equipes, no sentido daquilo que estamos transmitindo em nossa comunicação, faria sentido num universo onde não existissem “likes”?

Estamos empenhados em aumentar nossa “aura” através da promoção da dignidade de todo o “chat” da Igreja, incluindo a nossa própria?

Vale a pena deixar de lado o anúncio da Boa Nova para aumentar os “views”?

Amados irmãos, tudo o que proponho é reflexão, à luz do Evangelho.

Que sejamos protegidos por São Miguel Arcanjo e que Nossa Senhora Aparecida, padroeira da PASCOM, interceda por nós.

Imagem gerada por IA. Gemini – Nanobanana 2.

Joel Fernandes
Coordenador Diocesano da PASCOM
Assessor de Comunicação da Diocese de Guanhães

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